
Pic:Ellen Rogers
E eu me pergunto aonde foi parar o vestido que ele me fez costurar
e naquela noite especial usar...
vestido de botões de papoula com tramas
e urdumes da mais fina crina de cavalos andaluz?
A indumentária simplesmente desapareceu.
E o meu colar de escaravelho?
Eu me lembro que ele mesmo havia catado o inseto,
e fez questão de fazer o tal colar.
Um negro e belo escaravelho no peito a me enfeitar.
Um colar vivo,o meu bicho de estimação em eterna tanatose...
uma coisa meio Kafka.
Eu tantas vezes permaneci imóvel como o precioso escaravelho...
o inseto simbolizava eu mesma pelo olhar dele.
Por onde andará o meu cigano?
O tal caixeiro viajante que na antítese da Metamorfose,
não se transforma em nada,
e se transforma em tudo.
Inclusive se transforma em mundo?
Um bruxo que tem o dom de transformar os outros no que desejar.
Por onde anda o meu próprio chão?
E por onde eu caminho se não há terra?
Samba de uma nota dó que dói,
um fim sem fim,
sem solo para solar?
Aonde estão os meus regalos nesta história ?
Alma inconstante,olhar penetrante,
esteio eterno.
Água gelada numa alma apaixonada,
e nada preparada para a sua cruel desconectada...
S.F.
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