pic by me S.F.
pic by me S.F.
Parecia um sonho.
Ela descia as escadas sem olhar para trás.
Parecia um pesadelo.
A Carlota Joaquina contemporânea.
Cidade que nunca lhe deu nada.
Cidade que lhe roubou a juventude.
Paraíso que lhe enganou a vida inteira.
Apenas nasceu ali no meio daquela gente deslumbrada.
Lama em grãos ressecados.
Ela nunca pensou que principesca da forma que fora criada
iria descer tão baixo,ou melhor, subir tão alto…
lá estava ela numa casa perdida no meio de funks,
sertanejos, Alexandres Pires e Calipsos.
O que lhe restava além de seu olhar ainda infantil
apesar da idade avançada?
Lhe restava o amor aos inocentes.
Era muita escada pra descer,
e pouca gente a se preocupar.
Um silêncio que lhe partia a alma às vezes
e outras vezes o mesmo silêncio de vilão à mocinho.
Lhe fazia meditar.
Posição de lótus.
É a lama,é a lama,é a lama…
respira e inspira numa cadência.
Ela de sua casa fez um castelo.
Basicamente uma bolha cheia de telas,
tules, redes para aplacar a sujeira inerente.
Ela de seu corpo fez sua Igreja.
Basicamente um Convento.
Lia e ouvia o cantar de todos os passarinhos.
Esquecia-se de prestar atenção no mau gosto
que as radios e a elite ruminavam.
Ela era igual a todos eles.
Era apenas existencialista.
Era um velha mulher afogada em Por quês.
Parecia um devaneio de um corpo febril.
Se beliscava,se auto-flagelava,se cortava
e continuava ali na anestesia e no lixo.
Era real.Não podia ser real.
Aquele lugar com aquelas pessoas irritantemente felizes.
Felizes por quê?
No nono corte no braço ela desmaiou pela dor.
Parecia um sonho desmaiar cortando-se
para fingir estar num lugar decente.
Parecia tolo fingir ser e não estar.
Parecia pior ainda fingir estar
e não participar.
Principesca desabou e foi parar em um paraíso
tipo Bahamas.
Viagem lisérgica à base de cortes nos braços.
O triângulo das Bermudas estava de saia pareô.
Quando acordou, cheirou cânfora e resolveu
andar na correção da realidade semi nua e crua.
Decidiu se olhar e ver se tinha mais algumas avarias.
Tava tudo no lugar,salvo os cortes.
Descia as escadas,parava e se lambia.
Chupava-se na intençãp de estancar seu próprio sangue.
Ela tinha que sobreviver e continuar
vivendo num mundo aonde “beijinho no ombro”
era um fenômeno a ser estudado.
Sofria e parecia um pesadelo saber que um papel de bala juquinha amassado
numa Galeria virava ícone de Bienal
e que sempre os mesmos fariam a história por terem
sobrenomes quatrocentões...
balançou a cabeça falando consigo mesma.
Sentiu-se prisioneira do tempo.
Sem drama ou lágrimas continuou a peregrinação.
Chegou à rua.
Virou-se e viu a comunidade aonde morava.
Assustou-se por percebê-la enorme e disforme.
Era um monstro a surgir dos morros devorando a urbanização
do nível do mar…
parecia um sonho ter conseguido chegar ao chão.
Até ouvir uma histérica buzina de
um carro esdrúxulo.
Parecia um sonho o silêncio que tinha lá em cima.
Lá na comunidade que minutos reclamava…
Ela pensou que com o dinheiro daquela porra
de auto comprava-se umas 20 casas na Comunidade...
revoltou-se e começou a sangrar nos cortes.
Eram as chagas de Cristo em seus devaneios.
Era o sinal.
Sentiu-se a própria Joana D’arc…
lambeu os seus cortes
e esperou pacientemente o cara do Rolex
que dirigia o carro se afastar.
Ele se foi, o carro não.
Parecia um sonho para ela,
ia parecer um pesadelo para ele.
Sangrava e gargalhava de forma descompassada.
Não foi pela buzina, foi por ele ter sido o primeiro
a tê-la retirado do seu transe quando chegou
no chão…
não foi porque ele era rico e porque ostentava,
mas porque ele era um babaca prepotente e escroto
escondendo-se atrás de um veículo
e apertando aquela buzina irritante
como se fosse a teta de sua genitora…
parecia um sonho encontrar uma vítima assim tão boçal.
Principesca retirou o cinto de corrente de bike
e se teletransportou para “Sin City”.
Sumiu em brumas.
S.F.


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