sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Despedindo-se De Um Burguês Da Água Espraiada E De Alma Espraiada...

Elena Kalis


Despedindo-se De Um Burguês Da Água Espraiada E De Alma Espraiada...

Bem, agora está tudo bem.
Tudo voltou ao eixo.
Não fiques mais triste até os ossos.
Voltastes.
Aliás, jamais deverias ter se afastado.
Cada um tem o demônio que merece.
Cada um possui o vampiro designado 
e este pertence exclusivamente à ti.
Somente à ti e ele é todo teu.
Conseguistes aceitá-lo com todos os defeitos
e com a arrogância inerente .
Agora está tudo bem,
e eu te deixo em paz.
Agora será um calar eterno.
Pá de cal .
Questão finita.
A vida é isso:
inexorável inexistência.
Vocês sempre serão uma célula só.
Importantes juntos .
Ele, a parte forte.
Tu, a parte sensível.
A genialidade está em ti, 
todavia ele te alimenta.
Ele te enche de vida
e infelizmente necessitas dele.
É o teu astro rei.
O que eu considero mais importante nesta história é a minha sanidade.
E eu jamais devo travar contatos com quem outrora ousou tentar me machucar.
Considero o ato de mendigar amizades,amores, diálogos ou experiências também dispensáveis à mim.
A vida é isso:
pá de cal .
Questão finita.
Não há porque procurar coringas para dilacerar a alma.
A indiferença é perturbadora e sabes.
Eu assim vou seguindo.
Eu vou  por aí me afogando 
e sendo afogada a cada segundo.
Convivendo com o desprezo e
com a indiferença do bicho homem.
Não tens coração nem de ouro e nem de lata.
Eu apenas  disse que tinhas para ser irônica.
Não tens,ele já tomou para si o teu órgão vital.
Não tens nada, apenas uma fraqueza.
Eu poderia dizer que és tão frágil mentalmente,
que por muitas vezes senti vontade de pegar-te no colo.
Ele domina a tua mente e lhe segura  dando  folga na coleira de velho adestrador acostumado.
Ahhh as ações perversas são incapazes de serem notadas.
Não conseguistes percebê-las.
O que é veneno para seres como nós,
é seiva doce para ele.
Resisti por teimosia e pela insistência animal e ancestral.
Sou de matéria frágil :
espécie de papel já reciclado 
desmanchando-se.
Cristal que se desgasta 
e vira pó com o passar das estações.
Corrosão embutida.
Eu sou eterno outono.
Folha tombada em um córrego sujo.
O perdão  talvez fosse o caminho,
mas meu espírito encarnado é novo por demais .
Aceito ter vindo desprovida do perdão.
Vou por aí encontrando respaldo na vida em pessoas simples,
estas que tu, um burguês de alta patente,
julgou tábula rasa em uma conversinha amena.
Pois bem. São estas as pessoas que mais me entendem.
Elas conseguem me escutar calada. 
Ouvem de longe o meu pedido de socorro.
Tudo e o tempo todo sempre foi um pedido de socorro.
Pessoas como eu acabam por se afogar.
Somos tímidos  buracos negros de nós mesmos.
Auto-dragagem.
Ser temporário e nunca perene.
Sofrer não é privilégio meu, eu sei.
 Bobagem repetir para mim algo tão decorado.
Apenas acontece.
O sofrimento faz parte da vida.
Acontece com pessoas como eu,
como nós.
Aproveite o sopro de vida que ele te fornece.
A vida é isso:
pá de cal .
Questão finita.
S.F.

Nenhum comentário:

Postar um comentário